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Casos em que estudantes de baixo nível socioeconômico obtêm excelente desempenho escolar, chegando a ser aprovados em universidades públicas muito concorridas, são abordados com destaque e chamam a atenção da imprensa e da sociedade em geral, sobretudo pelas trajetórias pouco prováveis de seus protagonistas. Pesquisa qualitativa desenvolvida pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE identificou práticas ou características familiares que vêm associadas ao bom desempenho estudantil desses personagens, como o incentivo e visão de futuro, ordem moral doméstica, mobilização escolar, solidariedade familiar, autodeterminação e capital cultural.

Ao buscar compreender essas situações que confrontam expectativa e realidade, ou seja, pouca probabilidade e bons resultados, o mestre em Sociologia Jackson Barbosa da Costa desenvolveu a dissertação de mestrado “Práticas familiares e desempenho escolar em estudantes de baixo nível socioeconômico”. Sob orientação da professora Rosane Maria Alencar da Silva, o estudo apontou que famílias com reduzido volume de capital econômico e cultural fazem baixos investimentos na educação, isto porque o estilo de vida é marcado pelas pressões materiais e urgências temporais. “Os estudantes dessas classes costumam valorizar um aprender que lhes é útil para superar as dificuldades cotidianas, mas que está distante daquele exigido pela escola”, analisa Jackson.

Segundo o estudo, no contraponto à grande maioria de casos de insucesso nos desafios escolares, os alunos de baixo nível socioeconômico que têm um destaque no desempenho escolar fogem a essa regra por apresentarem um modo de vida marcado, principalmente, pelo esforço, por maiores investimentos escolares e incentivo familiar. “O fator capital cultural também esteve bastante presente nos casos de bom desempenho, apresentado a partir da escolaridade dos pais e pelo hábito de leitura”, acrescenta o autor, que explica o conceito de capital cultural como práticas relativas ao gosto, ao domínio corporal e ao domínio da norma culta. A pesquisa revela, ainda, que os alunos cujos pais tinham ensino médio completo obtiveram melhores desempenhos. “O tipo de linguagem adotada no ambiente familiar se mostra importante por seu impacto sobre o desenvolvimento cognitivo dos estudante”, explica.

Jackson da Costa constata que “um ambiente familiar favorável é, certamente, um dos principais fatores que contribuem no bom desempenho escolar, seja pelos capitais e estratégias que pode mobilizar em favor da entrada e permanência na escola, seja pela ordem moral estabelecida nas relações domésticas estimulando o aprendizado”. E pontua: “Esse fator é determinante, especialmente no caso do Brasil que tem uma sociedade tão desigual, visto que parte da variação no desempenho escolar está associada ao nível socioeconômico e a características familiares, ou seja, alunos de famílias com melhores condições socioeconômicas tendem a ter melhor desempenho, maior alcance educacional e melhores performances nos resultados educacionais.”

Sugestões – Tendo como base a literatura de François Dubet, que fez uma discussão das injustiças produzidas na escola e dos caminhos para se construir uma escola justa, o autor da dissertação aponta algumas medidas que poderiam minimizar a desigualdade do ensino escolar. São elas: a distribuição controlada e razoável dos recursos atribuídos à educação pública e privada e, apontada como “condição fundamental para a criação de uma escola justa”, a igualdade social das oportunidades. Jackson também propõe, como elemento para uma escola justa, o que os gestores considerarem as consequências das desigualdades de mérito.

Para o mestre em Sociologia, deveria existir uma base comum de conhecimentos que todos deveriam aprender indistintamente e que fosse útil não apenas para o mercado, mas para a vida do indivíduo como um todo, e defende que “o conhecimento comum seria um mínimo garantido a todos de forma a minimizar a crueldade da ideologia carismática ou meritocrática, que serve para mascarar as desigualdades sociais e para estigmatizar ainda mais os fracassados e, para isso o modelo educativo deveria ser repensado, de forma a dignificar o conhecimento que cada um carrega consigo”.

Por Emilayne Santos, da Agência UFPE

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