Quilombo: memória, presente e futuro

Enquanto pressões cercam comunidades na Baixada Maranhense, uma escola quilombola constrói a resistência no território ocupado por seus antepassados.

Por Solange Azevedo e Fernando Martinho (fotos), da Repórter Brasil

 

Capatazes chegam com chicotes em punho para cobrar o foro: uma espécie de imposto pago pelos quilombolas aos fazendeiros para poder viver nas terras e plantar. Sem muita conversa, recolhem a maior e melhor parte da produção da lavoura, fruto de meses de trabalho. Mandioca, milho, arroz, maxixe, abóbora. Quando julgam que a colheita não foi suficientemente farta, exigem dinheiro e confiscam tudo o que encontram. Carregam até pratos, panelas e cavalos. Botam fogo em casa de farinha para retaliar. Ameaçam de expulsão e morte quem se atreve a resistir. Deixam famílias inteiras para trás passando fome.

Embora pareçam saídos de um livro de história do século XIX, os relatos são de fatos recentes, e acontecem ainda hoje em quilombos do Maranhão – comunidades formadas pelos descendentes de quem viveu a escravidão naquela época. Em comunidades da Baixada Maranhense, é comum fazendeiros que se dizem donos das terras, muitas vezes sem ter nenhum documento de comprovação, obrigarem os moradores a repartir o que cultivam. É um sistema que se repete há décadas e, durante longo tempo, foi seguido sem questionamentos pelos quilombolas. Mas, à medida que eles foram tomando consciência de seus direitos, passaram a resistir e os conflitos se acirraram.

“Houve um fenômeno esquisito no estado, as fazendas eram vendidas com as pessoas dentro, como se fossem coisas”, pontua Sandra Araújo dos Santos, advogada da Comissão Pastoral da Terra (CPT). “Os negros não entendiam dessas questões de documentação, então iam sendo submetidos ao que os novos donos queriam, como ao pagamento de taxas absurdas”. Para muitas famílias, como as 150 que vivem no território onde está localizado o Quilombo do Charco, em São Vicente Ferrer, abrir mão do que produzem pode significar não ter o que colocar na própria mesa.

Mas a violência produzida pelo foro vai além da fome. O quilombola Flaviano Pinto Neto pagou com a vida porque ousou desafiar esse sistema. Foi executado com sete tiros na cabeça, em outubro de 2010. De acordo com a polícia, ele tombou a mando do fazendeiro Manoel Gentil. “Flaviano não aceitou que a exploração continuasse”, diz Zilmar Mendes, presidente da Associação Quilombola do Charco. “Foi assassinado porque libertou a nossa comunidade da escravidão”. Pelo menos cinco quilombolas foram mortos no Maranhão depois dele, em decorrência de conflitos de terras. O estado é um dos líderes em disputas fundiárias no país.

A perversa prática do foro, que persiste em dezenas de quilombos no Maranhão, é uma herança do modo como foi aprovada a Lei Áurea. A escravidão acabou oficialmente em 1888, mas não houve uma política de distribuição de terras. Quem havia sido escravizado ficou vulnerável a novas formas de aprisionamento mesmo dentro das áreas onde se estabeleceu como pessoa livre. As comunidades maranhenses, assim como de outras unidades da federação, foram constituídas por trabalhadores escravizados que buscavam liberdade ou recém-libertos, que se fixaram em áreas deixadas por fazendeiros falidos pós-abolição, em terras sem destinação ou em lotes recebidos como herança. Foram formando família. Mas, sem o amparo do Estado, a exploração continuou.

 

A comunidade que rompeu com o foro

Foi essa a história do Quilombo Nazaré, em Serrano do Maranhão, onde os moradores conseguiram romper com o sistema do foro poucos anos atrás. “O que a gente não pode fazer é se entregar”, salienta a professora Joana Batista Santos, de 60 anos. Ana, como é conhecida, nasceu e foi criada em Soledade, comunidade a 9 quilômetros dali. Ela se mudou para Nazaré em 2000, para dar aula na única escola do povoado, e viu que a situação de exploração não era diferente de outros quilombos do estado. Mas, àquela altura, o marido dela, José Romão Reis Reges, hoje com 60 anos, já estava envolvido com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cururupu, de onde se tornou presidente. E o fim do foro era uma das bandeiras da entidade. “Para receber, o fazendeiro tinha que mostrar o recibo de propriedade da terra”, alega Reges.

A resistência à taxa imposta por fazendeiros aumentou quando os quilombolas começaram a despertar para os seus direitos. A presença de Clemir Batista e Inaldo Serejo, da CPT, a partir de 2005, foi essencial nesse processo tanto em Nazaré quanto em outras comunidades nas redondezas. Eles “plantaram uma sementinha”, reconhece Gil Quilombola, de 37 anos, o filho mais velho de dona Ana e seu Reges, uma das lideranças da região. “Detectaram que Serrano era uma área com muitos conflitos fundiários. Começaram a falar de quilombos, quilombolas, direitos e deveres. A gente se assanhou”, brinca Gil. Nesse momento, surgiu na Baixada o Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom), que passou a fazer reivindicações e se estendeu por todo o estado. Seus integrantes já chegaram a acampar no Incra e a fazer greve de fome, em busca de visibilidade para sua luta e reconhecimento legal de seus territórios.

Nazaré está encravado a mais de 100 quilômetros da capital, São Luís. Uma viagem de cerca de 6 horas que envolve travessia de balsa, percurso em estrada de asfalto e de areia fofa. É uma das onze comunidades quilombolas do território batizado de Mariano dos Campos, área cuja extensão equivale à metade do Plano Piloto de Brasília e é reivindicada pelos quilombolas em um processo que corre no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) desde 2011. A demanda por regularização fundiária é grande na região. Pelos cálculos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 94% da população de Serrano é quilombola. É a maior proporção do país.

O empresário Wellington Dias, que já se candidatou a vereador e a prefeito pelo Partido Verde na cidade vizinha, Cururupu, é um dos que afirmam ter comprado propriedades lá. Disse à Repórter Brasil ter adquirido a primeira em 1982 do espólio do médico Cesário Coimbra. “É muito fácil não estudar, não trabalhar, não fazer nada e querer se apropriar de terras alheias”, critica. Contrariando a autoidentificação da comunidade, o reconhecimento da Fundação Cultural Palmares e do próprio Governo do Estado de que a área é quilombola, tanto que há políticas públicas específicas para as comunidades, Dias alega que Nazaré nunca foi um quilombo. “Isso é uma farsa”, reclama. A reação dele mostra a dificuldade da comunidade em fazer valer o artigo 68 da Constituição, que prevê a concessão definitiva de propriedade. Direito que está ameaçado pela Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3239, ajuizada pelo DEM no Supremo Tribunal Federal.

A demora do governo federal na regularização definitiva das terras, a maioria já certificada como quilombola pela Fundação Cultural Palmares, mantém os ânimos exaltados. “Antes negro deitava no chão pra fazer ponte pra branco passar por cima. Hoje não deita mais porque negro já é sabido”, frisa José Mário Silva Pinto, de 54 anos. Ele conta que chegou a encontrar perto de sua casa um fojo, vala profunda coberta por folhas usada por capitães-do-mato como armadilha para capturar pessoas escravizadas que haviam fugido ou mantê-las presas. “No inverno ficava tudo cheio de água. Tem fojo onde jogavam os negros e eles não saíam mais porque tinha ponta de ferro”, lembra.

Pinto leva a vida como a maior parte dos habitantes de Nazaré, em casa de taipa, e tira seu sustento da terra e do rio. Seu orgulho de ser quilombola emergiu quando a CPT ajudou o povoado a exorcizar discursos como o de que as religiões de matriz africana são “coisas do demônio” e de que “negro não presta”. “Não desprezo a minha comunidade”, afirma ele. “Não tenho intenção de sair daqui”. No Quilombo, divindades católicas convivem com orixás, caboclos e encantados. Tambores de mina e crioula ecoam nos festejos do povoado. “O toque do tambor palpita no peito como se fosse o próprio coração, e os quilombolas vão se encorajando pela força de seus ancestrais e da espiritualidade”, diz Sandra, da CPT.

 

A primeira quilombola

Contam os mais antigos que o português Ramiro Pinto chegou à Baixada Maranhense na primeira metade do século XIX. Teria seguido a rota de pássaros e aberto uma estrada na mata imaginando que encontraria um rio e que poderia fixar residência nas redondezas. Nhô Ramiro, como era chamado, conseguiu o que buscava. Colonizou uma boa porção de terras por lá e manteve o costume da época: perpetuou seu sobrenome tanto nos herdeiros de sangue quanto nas pessoas que escravizou – um sinal de que seriam todos de sua propriedade.

Parte do que se sabe hoje sobre a história da região foi relatada por uma neta de Nhô Ramiro, Galberta, filha de um homem branco e de uma mulher negra escravizada. Ela teria vivido lúcida até os 115 anos. “Minha vó Galberta ainda era criança quando a princesa Isabel gritou a liberdade”, lembra Pedrolina Pinto Castelhano, de 62 anos, se referindo à Lei Áurea. “A família se espalhou quando acabou a escravidão. Muitos negros já tinham fugido das fazendas naquele tempo, mas ela ficou. Cresceu no Quilombo Nazaré”.

Galberta costumava reunir os netos em bancos de madeira ou sentados no chão sobre folhas de piaçaba para contar o que sabia. Formava uma grande roda de crianças. Todas com pratinhos de comida redondos de barro produzidos por ela própria. Falava dos sacrifícios de viver numa sociedade opressora. Repetia que os senhores de escravos das fazendas de lá se saudavam todas as manhãs chacoalhando lenços brancos. “A mata não era alta como agora, era tudo limpinho”, recorda Pedrolina. “Os negros sofriam demais. Minha vó não fugiu porque era doente, nasceu corcunda. Fazia tudo que mandavam”.

Muita coisa mudou desde então, em especial quando os quilombolas foram descobrindo seus direitos. Entre a instalação de um poço artesiano e o rompimento com o sistema do foro, um local marcou o processo de transformação da comunidade: a escola, que se tornou o centro de resistência do Quilombo Nazaré. Saiba sobre esse processo no próximo capítulo.

Retomada: o quilombo que renasceu na escola

Nada lembra uma escola tradicional. Tudo o que os alunos aprendem tem relação com o dia a dia da comunidade. Amazônia e Cerrado ganham destaque nos debates em torno dos biomas brasileiros. A riqueza da juçareira, do babaçu e do tucum é usada como estímulo para a batalha pela preservação ambiental. Incentivar os estudantes a refletir sobre a importância da cultura e da espiritualidade de seus ancestrais é o ponto de partida para a valorização da identidade quilombola. Na sala de aula ampla e sem paredes do Quilombo Nazaré, na baixada ocidental maranhense, a cultura de origem africana é tratada com respeito. Nesse espaço, orixás, encantados e caboclos convivem em paz com divindades católicas. “A gente não camufla o que nos fere”, diz a professora Leidiane Santos Reges, de 30 anos, para quem um importante ensinamento começa com a mudança de vocabulário sobre o passado colonial: “Não fomos escravos, fomos escravizados”.

O Centro de Ensino Fundamental Nossa Senhora de Nazaré, onde Leidiane leciona, se tornou referência não só em educação e cultura, mas também na elaboração de uma resistência que mistura identidade e território. “A retomada do nosso território se dá via educação”, explica a professora. Ela se refere ao ensinamento cotidiano sobre a importância de permanecer nas terras ocupadas por seus antepassados e ao direito de viver a identidade quilombola. Viver da caça e da pesca, em casa de taipa, tocar tambor e praticar a espiritualidade trazida pelas religiões de matriz africana compõem um modo de vida que precisa do território para existir.

“A defesa do território é feita pelas próprias comunidades porque elas não podem esperar pelo Estado”, alerta Clemir Batista, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). “Isso acirra os problemas. O Maranhão é um dos líderes em conflitos agrários no Brasil e os povos tradicionais estão no foco.”

Gil Quilombola, de 37 anos, irmão de Leidiane e articulador-geral do Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom), já foi ameaçado de morte três vezes. O estado é a unidade da federação com o maior número de processos de regularização instaurados no Incra: 377. Mas o órgão titulou apenas três territórios desde 2003, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva baixou um decreto regulamentando a questão. Nesse contexto, as próprias comunidades estão tomando para si a função resistir, fincando o pé nos territórios, mesmo sob ameaça – processo conhecido por retomadas.

“A gente tem consciência de que vai ter que defender o território na lei ou na marra. Se não der na lei, vai ser na marra”, garante Gil. Apesar da morosidade na regulamentação fundiária dos territórios, ele sabe que a legislação brasileira reconhece à sua comunidade o direito de posse a partir da autoidentificação como quilombola. “Se for preciso dar o próprio peito pra bala a gente vai fazer. Não tem outra alternativa”, afirma.

Levar essas questões para dentro da classe funcionou como um chamariz. Os alunos ficaram mais interessados, a comunidade foi estimulada a participar e novas professoras surgiram na região. “Estamos formando quilombolas, porque antes a gente nem sabia o que era isso e não se assumia. Também é uma luta contra o êxodo rural”, afirma Leidiane.

A virada dentro da escola começou no início de 2014, quando a então secretária municipal de Educação, Maria Gorethi dos Santos Camelo, prometeu fechar a unidade e transferir todos os estudantes para Soledade – quilombo a 9 quilômetros dali – porque pretendia acabar com as escolas de taipa. Parece perto, mas são ao menos 90 minutos de caminhada. Além de o acesso pela estrada de areia fofa ser complicado, o transporte da prefeitura falha principalmente na temporada de chuva.

Naquele ano, só havia até o 4º ano em Nazaré, e a família de Leidiane e Gil – os Reges – reivindicavam a ampliação até o 9º. Por causa do transtorno de ter de ir a Soledade para continuar os estudos, diversos alunos desistiam ou eram reprovados por faltas. O caso mais emblemático foi o de três meninas que ficavam escondidas na mata pertinho do povoado até dar o horário de voltar da escola porque tinham medo de estranhos que encontram pelo caminho. “Chamamos a secretária para uma reunião na comunidade e ela logo sentiu a dificuldade que é chegar aqui. Gorethi veio de moto e caiu na estrada. Era janeiro e estava tudo cheio d’água”, lembra a diretora Josenilde, de 32 anos, irmã de Leidiane e Gil. “Deixamos claro que ninguém ia levar as nossas crianças [naquelas condições]”.

A família Reges não só impediu o fechamento da escola como implantou o ensino fundamental completo. A maior revolução foi nas aulas de história, onde as lições sobre a África vão muito além das epidemias e da fome. O que norteia o currículo é a reafirmação do orgulho quilombola. Oficinas de tambor remetem à espiritualidade. A tradição das tranças é abordada como questão de identidade e uma forma de resistência. “Tomamos do governo a educação pra ensinar o que é nosso. A educação quilombola é nossa”, defende Leidiane. “A gente viu nessa ação uma forma de trazer a luta pelo território pra escola”. A escola que a secretária Maria Gorethi queria fechar porque era de taipa foi construída com recursos da comunidade de Nazaré; assim como a atual, um grande salão de alvenaria foi erguido pela associação de moradores.

Das autoridades de Serrano do Maranhão, os Reges só tiveram auxílio na parte administrativa, para a formalização dos dados de atas, boletins e do Censo Escolar. As professoras deram aula a maior parte de 2014 sem remuneração. “A gente teve coragem de trabalhar de graça porque as crianças não podiam ficar sem estudar”, recorda a matriarca Joana Batista Santos, de 60 anos, conhecida como Ana.

Ainda hoje as dificuldades persistem. Os salários atrasaram novamente e a merenda não chega. Mas as professoras não param. A nova secretária de Educação, Marileide Santos Costa, justifica que o número de alunos da rede municipal cresceu 25% neste ano e a quantidade de classes multisseriadas diminuiu, obrigando assim a aumentar o quadro de professores. De acordo com ela, só há dinheiro para bancar os contracheques dos concursados. É o caso de apenas uma docente, dona Ana, entre as seis que trabalham em Nazaré.

Embora os Reges definam 2014 como o marco das mudanças, eles começaram a despertar nas crianças e nos adolescentes o apreço por suas raízes muito antes. Gil assumiu em 2005 a direção da escola Coronel Dom Carvalho, em Soledade. Lá, iniciou um trabalho de desmistificação das questões ligadas aos negros e à escravidão. Levou tambor de crioula e informações sobre religiões de matriz africana. “Não se falava ainda sobre ser quilombola, mas eu já militava no movimento negro e quis colocar essa discussão porque os livros não contam toda a nossa história”, lembra. As diretrizes curriculares nacionais focadas nessa população só foram aprovadas em 2012.

Apesar da discordância de parte da comunidade católica de Soledade, o número de alunos dobrou no primeiro ano de Gil à frente da unidade. Inclusive adultos que tinham parado de estudar se sentiram estimulados a voltar. Além do novo projeto pedagógico, o então prefeito Leocádio Olímpio Rodrigues havia atendido a uma reivindicação de dona Ana, inaugurando o segundo ciclo do ensino fundamental.

Dona Ana já era uma professora respeitada na região. Começara a lecionar em Soledade em 1993, em sua própria casa. “A gente tinha uma sala grande. Então, botamos quadro e cadeiras lá”, salienta. “Eles não tinham pra me pagar. Às vezes, me davam um quilo de peixe, uma galinha, e assim ia.”

Embora as mudanças na escola estivessem atraindo mais alunos, o prefeito surpreendeu a comunidade ao tirar Gil da direção e a mãe dele da sala de aula para contratar professores de fora do povoado. “A pressão era tremenda em cima de mim porque eu defendia justamente o contrário, que os professores fossem da comunidade”, observa Gil. “Então, ficavam dizendo que eu estava desvirtuando as coisas; que o que eu estava fazendo não era educação”. Ele e dona Ana deixaram Soledade, mas a experiência acumulada lá foi fundamental para o fortalecimento da escola de Nazaré.

De Nazaré para o Maranhão

“Professor nenhum parava nessa escola antes da Ana chegar, ela é uma pessoa de muita garra. E tudo aqui tem dedo da família dela”, diz Maria José Pinto de Souza, de 65 anos. Quando dona Ana assumiu, em 2000, havia 14 alunos. Hoje são 45. Junto com o salto de estudantes, aumentou de 5 ou 6 para mais de 30 as famílias vivendo no quilombo. Antes muitas eram obrigadas a migrar para o município vizinho, Cururupu, ou para a cidade de Serrano, para que os filhos estudassem.

A briga dos Reges agora é pelo ensino médio. Mas isso não está nos planos do governo. Segundo Gerson Pinheiro, secretário de Igualdade Racial do Maranhão, está previsto só um prédio, com duas salas, onde passará a funcionar o Centro de Ensino Fundamental Nossa Senhora de Nazaré.

Mesmo sem o ensino médio na comunidade, muitas outras crianças e adolescentes poderiam ser beneficiados pelo ensino fundamental de Nazaré se estivesse pronta a estrada prometida pelo Estado, na chamada Rota do Rio das Almas, interligando todas as comunidades quilombolas do território Mariano dos Campos. “Em janeiro de 2017 ganhamos um ônibus escolar, mas ele está servindo a Serrano porque a estrada não chegou aqui”, observa dona Ana. Apesar de todos os obstáculos, os Reges seguem firmes e a experiência deles em sala de aula tem sido bem avaliada.

Depois que a escola virou referência na região, até a prefeitura, que tentou fechar a unidade, afirma agora que planeja replicar o modelo. “O corpo docente de lá é muito bom e tem vivência na questão do território. Isso nos ajudará bastante na proposta de implementar no município as diretrizes curriculares da educação escolar quilombola”, declarou a secretária Marileide à Repórter Brasil. A expansão do modelo não seria pequena, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 94% da população de Serrano do Maranhão é quilombola.

Embora o reconhecimento do Estado seja importante para os alunos terem condições de avançar nos estudos, para Leidiane a maior validação vem da comunidade. “Eu já quis sair de Nazaré, mas agora não quero mais. Me sinto bem na escola e perto da minha família”, diz Karliane Kelly Silva, de 14 anos. No início e no fim das aulas, a professora costuma pedir a proteção de santos, orixás, caboclos e encantados. Estimula a busca pela soberania com orações e cânticos. “Quem dera a gente não dependesse do governo nem para dar o histórico dos alunos”, diz Leidiane. “A luta é pelo território livre, pelo respeito à nossa cultura e espiritualidade.”

Embora estejam bem amparados dentro da escola, fora dela as crianças e os adolescentes da comunidade enfrentam as ameaças do trabalho infantil e análogo ao de escravo. No próximo capítulo, saiba como meninas são levadas para trabalhar sem receber como domésticas nas grandes cidades, enquanto os meninos estão sujeitos à atividade pesada de carregar caminhões de areia dentro do próprio quilombo.

Serrano do Maranhão, MA

Localização do quilombo

km da capital, São Luís

%

população quilombola

alunos em atividade

Novas gerações: Ameaça do trabalho infantil e análogo ao escravo

A história se repete. “Não gosto nem de me lembrar. Eu não podia falar nada que me batiam. Fui muito maltratada”, conta Laudicélia Lisboa Rodrigues, de 32 anos. Ela saiu de casa aos 7 para morar com parentes e se tornou empregada doméstica de uma família em São Luís, capital maranhense, onde ficou até completar 16. “Lavava, limpava, passava pano, fazia comida e cuidava de duas crianças. Não ganhava nadinha, era trabalho escravo.” Além de se lamentar ao lembrar do passado, Laudicélia sofre ao observar o ciclo se repetir no presente. Seu filho do meio, de 12 anos, já está na lida. “Não foi por meu mandado. Eu sei que trabalho infantil é crime”, diz.

O menino foi recrutado em 2016 por mineradores de areia, uma das atividades que rouba a infância no Quilombo Nazaré, na zona rural do município de Serrano do Maranhão. Para muitos dos que vivem ali, a abolição em 1888 não significou o fim da exploração. O trabalho escravo contemporâneo e o trabalho infantil são ameaças cotidianas.

Franzino, o filho de Laudicélia relata que recebe 15 reais cada vez que ajuda a encher um caminhão. “Compro comida e levo pra casa: salsicha, ovo, farinha”, afirma. Ele garante que o patrão não se importa por ele não ter força suficiente para produzir tanto quanto os adultos. “Ele deixa colocar só um pouquinho de areia na pá”, acrescenta. O menino está no 7º ano do Centro de Ensino Fundamental Nossa Senhora de Nazaré, mas costuma faltar ou chegar atrasado por causa do serviço. Diz que se entristece quando isso acontece porque sente que está “perdendo alguma coisa”. Se pudesse, “ficaria só na escola” – e não sob o sol num trabalho pesado até para os mais velhos.

“Eu gosto mesmo é de brincar, jogar bola, banhar no rio, andar de carro e moto, respeitar, comer e estudar”, enumera. É para o dono da Oliveira Construção, Raimundo Oliveira, de 50 anos, morador da cidade vizinha de Cururupu, que o garoto labuta. “Do jeito que tá o Brasil, pra gente fazer tudo legalizado é muito difícil”, reclama o comerciante. Ele reconhece que seus trabalhadores não têm carteira assinada, mas não admite que usa mão de obra infantil.

Quando a equipe da Repórter Brasil estava no quilombo, um areeiro conhecido como Magno partiu para cima de Fernando Martinho, autor das imagens que compõem esta cobertura. Ele não gostou de ter sido flagrado na ilegalidade, com o caminhão carregado. Mandou o motorista parar e foi tirar satisfação. Gil Quilombola, de 37 anos, articulador-geral do Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom), que estava sendo entrevistado naquele momento, interveio para defender Martinho.

Magno justificou que estava retirando o minério nas propriedades do empresário Wellington Dias, que já foi candidato a vereador e a prefeito pelo Partido Verde em Cururupu, município vizinho. Dias nega que tenha autorizado. “Não foi com a minha ordem que ele foi lá”, disse à Repórter Brasil. Pelo que relatam os quilombolas, há uma porção de caminhões transitando dia e noite devastando a região. Eles dizem que Oliveira foi o primeiro a entrar em Nazaré para extrair areia, no início dos anos 2000. Um dia depois da confusão com Magno, Oliveira tentou furar um bloqueio feito na estrada por moradores insistindo que tinha o direito de explorar o local. Não conseguiu.

Invasão de búfalos

A mineração evidencia uma vulnerabilidade da comunidade: a falta de acesso à geração de renda. Enquanto lideranças locais alertam que a retirada de areia avança sobre a vegetação, abrindo buracos imensos no solo, há quilombolas que trabalham para os minerações porque não enxergam alternativas de renda. “Como a roça dá de ano em ano, a gente vai encher caminhão e se sente feliz porque recebe o dinheirinho na hora”, frisa Luiz Domingos Reis, de 36 anos. “Mas a extração é ilegal”, rebate Francisco de Assis, promotor de Justiça que atua no município. “Não importa se a pessoa é ou não a dona das terras. É preciso ter licença ambiental”.

O empresário Wellington Dias representa, segundo os quilombolas, a principal ameaça. Além da devastação provocada pela retirada de areia, ele é um dos fazendeiros que criam búfalos na região. José Ribamar, de 50 anos, que trabalha para Dias, relata que só em Nazaré cuida de cerca de 50 búfalos. Fora as 100 cabeças de gado branco. O problema é que os búfalos vão pastar e passam boa parte do dia – e muitas vezes da noite – dentro do Rio das Almas, contaminando a água com fezes e urina. Quilombolas que vivem nas redondezas dependem justamente desse rio para pescar e beber água. “Os peixes ficam com um gosto ruim e com um tipo de germe”, relata a professora Rosemary Pinto, de 43 anos, do Quilombo Santa Rosa.

“Uma lei estadual proíbe a criação de búfalos soltos no campo natural. Eles têm que ficar presos em um cercado”, reforça o promotor Assis. A polêmica é antiga na região. Tanto que, em represália à destruição causada pelo manejo incorreto do animal, os quilombolas de comunidades da baixada ocidental maranhense já se juntaram duas vezes e mataram uma porção de búfalos. “A revolta foi grande. A nossa causa estava praticamente perdida. Mas teve uma audiência pública e a gente pescou um peixe no campo, cozinhou e levou para o juiz. Ele não teve coragem de comer”, lembra Rosemary. “Foi aí que a gente ganhou e retiraram os búfalos. Só que uns 4 ou 5 anos depois voltaram a colocar”.

A batalha do Moquibom é pela titulação de uma área equivalente à metade do Plano Piloto de Brasília. O território, batizado de Mariano dos Campos, compreende 11 comunidades no município de Serrano. Lá, assim como em povoados de outras regiões do estado, os moradores não admitem cercas. Arames colocados em Nazaré a mando de Wellington Dias foram cortados na calada da noite. O mesmo aconteceu em Bacabal do Paraíso, também em Serrano, em cercas instaladas pelo ex-prefeito Leocádio Olímpio Rodrigues. “Ele disse que tinha comprado umas terras lá e que ia fazer um cercado dividindo a comunidade ao meio”, recorda Gil. “Cortar foi uma forma que encontraram de resistir e não aparecerem, por medo de represálias”.

A luta dos Reges pela identidade do povo está relacionada à defesa do território e pelo direito das pessoas continuarem vivendo ali sem ser exploradas. Uma aluna do Centro de Ensino Fundamental Nossa Senhora de Nazaré, de 14 anos, contou à Repórter Brasil que foi mandada para São Luís quando tinha 12. “Não pagavam nada e eu não conseguia nem ligar pra minha mãe”, sublinha. Depois de passar mais de 6 meses limpando a residência e lavando as roupas à mão, a menina conseguiu voltar para casa. “Se me convidassem de novo eu não ia. É no quilombo que eu me sinto bem”, diz.

“É preciso compreender que a cultura quilombola não é do acúmulo”, lembra o padre Clemir Batista, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). “É outra lógica de viver e de pensar sobre a vida”. Mas o apelo externo é imenso. Enquanto a falta de uma escola de ensino médio acaba expulsando boa parte dos estudantes para fora do quilombo, para viver nas periferias das cidades vizinhas, os meninos que estão lá são expostos ao assédio de areeiros e as meninas a propostas “de uma vida melhor” se aceitarem trabalhar como domésticas. Mesmo os adultos, que têm dificuldades para tirar o sustento da lavoura, ficam vulneráveis. “Eles vão se fortalecendo juntos porque sabem que não têm outra coisa a fazer, a não ser lutar”, diz Sandra Araújo dos Santos, advogada da CPT. “É um processo de resistência e de libertação que ainda demanda muita luta”.

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